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13 Reasons Why, o recente drama da Netflix sobre uma adolescente suicida, fez um grande sucesso quando estreou em março, mas também desencadeou um debate feroz entre críticos, que se dividiam ao falar da representação do suicídio – para alguns foi irresponsável. Agora, uma pesquisa nos Estados Unidos mostra um aumento significativo em buscas relacionadas ao suicídio, depois do lançamento da série. Uma descoberta que, segundo um especialista, confirma um dos seus maiores temores.

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A pesquisa foi publicada nesta segunda-feira (31) no Journal of the American Medical Association. John W. Ayers, um epidemiologista computacional que trabalha na Universidade Estadual de San Diego liderou a pesquisa depois de saber sobre a controvérsia ao redor da série. Ele descobriu mais de 600 mil notícias e mais de 11 milhões de tweets a respeito de 13 Reasons Why durante as três semanas seguintes ao lançamento. “Havia uma quantidade tremenda de debates acontecendo, todas baseadas em experiências pessoais profundas que não iam para lugar nenhum”, disse Ayers à Wired. Ele esperava conseguir entregar alguns dados concretos sobre a influência do seriado.

13 Reasons Why conta a história de uma estudante do ensino médio que deixa uma série de fitas cassete explicando como várias pessoas em sua vida foram responsáveis por seu suicídio. O seriado foi criticado por não seguir as diretrizes da Organização Mundial de Saúde para representações responsáveis do suicídio, bem como por sua falta de discussão sobre doenças mentais. Os críticos ficaram preocupados que, com esse tratamento do assunto, houvesse uma consequência mais negativa do que positiva para espectadores vulneráveis.

Ayers e sua equipe decidiram dar uma olhada nos dados de busca do Google relacionados a suicídio nas semanas seguintes ao lançamento de 13 Reasons Why. Os pesquisadores reuniram dados das tendências do Google entre o dia do lançamento do seriado, 31 de março, até o dia 18 de abril. A ex-estrela da NFL Aaron Hernandez cometeu suicídio no dia 19 de abril, então eles decidiram colocar esse limite. Da pesquisa:

Obtivemos tendências de pesquisas incluindo o termo “suicídio”, exceto aqueles que mencionavam a palavra “esquadrão” (do popular filme Esquadrão Suicida”), vindas dos Estados Unidos. Utilizando a ferramenta de termos de pesquisas relacionadas, também monitoramos os 25 termos mais populares e os próximos cinco termos relacionados a esses, rendendo 20 termos depois que ignoramos as duplicadas, os não relacionados (exemplo: escorregador suicida), ou incertos (exemplo: ponte suicida).

Para criar a base de dados das pesquisas médias relacionadas ao suicídio, a equipe puxou dados de 15 de janeiro a 30 de março e utilizou um algoritmo com modelo auto-regressivo integrado de média móvel (ARIMA) para criar uma previsão de pesquisas esperadas. A discrepância entre buscas esperadas e as que realmente aconteceram após a estreia da série foi surpreendente.

Na média, as buscas ficaram 19% acima do esperado no modelo de previsão. Em um dia, em 18 de abril, as buscas reais ficaram 44% acima do esperado. Mas o volume não era a parte mais preocupante para Ayers. Ele descobriu que o aumento das buscas relacionadas à ideação suicida – a representação mental sobre como acabar com a própria vida – foi a parte mais significativa. “Como cometer suicídio”, mostrou um aumento de 26%, enquanto “músicas suicidas” foram buscadas 50% mais do que o esperado pelo modelo.

As informações dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA em sua base de dados sobre causas de morte vão apenas até 2015, então Ayres não conseguiu mostrar definitivamente se os suicídios aumentaram ou não depois do lançamento da série. Pesquisas anteriores mostraram uma correlação entre “buscas por termos explicitamente suicidas com medições convencionais de risco suicida auto-relatado na estimativa de suicídios completados”.

Os criadores da série e seus defensores argumentam que o seriado poderia aumentar a conscientização e ajudar a prevenir o suicídio. Os dados da equipe de pesquisa encontrou picos de buscas para “números de linhas de prevenção ao suicídio” (21%) e “prevenção ao suicídio” (23%).

Essa pesquisa não vai solucionar o debate sobre o método da Netflix com 13 Reasons Why. Ayers diz ao Motherboard que ele acredita que a série deveria ser tirada do ar, porque simplesmente não “vale o risco”. Isso provavelmente não acontecerá, já que a segunda temporada já está em produção e prevista para ser lançada em 2018.

Mas esses dados servem para os criadores levarem em consideração como trabalhar em novos episódios. O serviço de streaming adicionou um alerta e informação para prevenção de suicídios em maio. Agora que os produtores receberam bastante retorno, eles poderiam realizar um esforço concentrado para seguir as diretrizes da Organização Mundial da Saúde e trazer especialistas e profissionais de áreas médicas para tornar a série a mais responsável possível. Alguns dados indicam que 13 Reasons Why pode ter ajudado alguns espectadores. É mais um motivo para fazer uma segunda temporada do jeito certo.

O Centro de Valorização da Vida realiza no Brasil apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email, chat e Skype 24 horas todos os dias. Clique aqui para saber mais.

[Journal of the American Medical Association via Wired, Motherboard]

Imagem do topo: Netflix




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