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Celulares que explodem estão entre as menores preocupações da Samsung. Nesta quinta-feira (9), a justiça sul-coreana destituiu formalmente a presidente do país, Park Geun-hye. A saída aconteceu quatro meses depois da revelação de um escândalo de corrupção que abalou não somente o governo da Coreia do Sul, como também a maior empresa do país.

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No mês passado, o líder da Samsung, Lee Jae-yong – conhecido como Jay Y. Lee no mundo ocidental – foi preso pelas autoridades sul-coreanas por ter conexões com um grande escândalo de corrupção. Na quinta-feira, Lee negou mais uma vez as acusações de que ele e outros quatro executivos da Samsung teriam oferecido suborno ao governo. A data do julgamento oficial ainda não foi marcada, mas os resultados podem ter grandes implicações para o futuro da Samsung e da família que controla a empresa.

Na Coreia do Sul, o promotor-chefe disse que o julgamento de Lee pode ser “o julgamento do século”. Embora soe um pouco como um slogan exagerado para um livro policial brega, o caso é realmente bizarro – envolve um drama familiar interpessoal, milhões de dólares em supostos subornos, insultos antissemitas, oficiais corruptos do governo e até mesmo cultos xamânicos.

Antes de entrarmos nos detalhes, no entanto, é importante saber um pouco sobre a estrutura corporativa da Samsung na Coreia do Sul. A empresa é conhecida como uma chaebol – como se fosse um conglomerado –, e toda a operação, que inclui a Samsung Electronics, Seguro de Vida Samsung e Samsung SDI (que fabrica baterias que explodem), é controlada por diversos membros da família Lee.

O chaebol é um negócio muito importante na Coreia do Sul e é um modelo que tem se alinhado com as políticas sul-coreanas por muitos anos (falaremos mais sobre isso ainda). E, enquanto Lee e seus executivos enfrentam um processo, o sistema chaebol, em que o controle familiar é crucial, está sob vigilância. Afinal, todo esse escândalo se resume basicamente a uma coisa: a família Lee queria garantir que Jay Y. Lee fosse suceder seu pai no controle da Samsung.

Tecnicamente, o atual presidente da Samsung é Lee Kun-hee, mas, depois que ele sofreu um ataque cardíaco em 2014, as operações do dia-a-dia foram passadas para o seu filho, Jay Y. Lee. Ele é o mais jovem da família, conhecido pela imprensa local como “Príncipe Herdeiro da Samsung” e, por ser filho único, foi preparado para suceder seu pai durante muitos anos.

samsung-lee-paiLee Kun-hee, o presidente da Samsung (Image: AP)

No entanto, a sucessão não tem sido muito suave. Em maio de 2015, duas filiais da Samsung, Cheil Industries e Samsung C&T, anunciaram que planejavam uma unificação. O acordo era decisivo – combinar essas empresas iria solidificar as ações necessárias para manter a linha de sucessão com a família.

E, enquanto a unificação significaria boas notícias para a família Lee, ela não seria necessariamente boa para outros investidores da companhia. A Elliott Associates, um fundo de investimento especulativo dos EUA e terceiro maior acionista da Samsung C&T, se opôs à unificação, e o CEO da empresa, Paul Singer, criticou publicamente o acordo. A Samsung C&T tem uma grande participação na Samsung Electronics, um dos patrimônios mais valiosos da chaebol. Singer argumentou que os donos da Chiel Industries – membros da família Lee – acabariam ganhando uma porção significativa na Samsung Electronics por um preço muito baixo.

Singer tentou processar a Samsung para impedir a junção das empresas, mas o tribunal não impediu o negócio. Então, ele fez a jogada clássica de um acionista – parecido com os vários golpes que aconteceram no Yahoo – e votou contra o acordo, trazendo alguns outros investidores estrangeiros com ele. A batalha foi suja; em um momento, a imprensa sul-coreana publicou insultos antissemitas contra Singer, o que levou a Samsung publicar um comunicado “condenando o antissemitismo em todas as suas formas”.

No final das contas, a votação acabou a favor da família Lee, resultando numa fusão bem-sucedida entre a Cheil Industries e a Samsung C&T. No entanto, de forma decisiva, isso só foi realizado graças à ajuda do Serviço Nacional de Pensão da Coreia do Sul (NPS, na sigla em inglês), que possui 9,9% das ações da Samsung C&T e 5% das ações da Cheil Industries.

Aqui – finalmente – é onde entram as acusações de suborno. Supostamente, a agora ex-presidente sul-coreana, Park Geun-hye, e sua confidente Choi Soon-sil, pressionaram a NPS a aprovar a fusão, graças a alguns pagamentos de Lee e outros membros da Samsung.

Foi assim que o New York Times noticiou o fato em janeiro:

O sr. Lee é acusado de instruir subsidiárias da Samsung a realizar pagamentos totalizando 43 bilhões de wons sul-coreanos, cerca de 36 milhões de dólares, para a família da confidente da sra. Park, Choi Soon-sil, e para duas fundações que a sra. Choi controlava, em troca da ajuda da sra. Park na viabilização da transferência de controle de propriedade da Samsung de pai para filho.

Esses supostos subornos tomaram todos os tipos de formas, incluindo um cavalo de US$ 900 mil para a filha de Choi. A Samsung admitiu que deu dinheiro para as fundações de Choi e para a compra do cavalo, mas negou fazer parte de qualquer irregularidade. Os promotores disseram que Lee fez essas “doações” como uma maneira de obter favores de Park, garantindo que a fusão pudesse acontecer em 2015.

Além disso, durante a época da votação da junção das empresas, o presidente da NPS, Moon Hyung-pyo, também era ministro da Saúde e Bem-Estar da Coreia do Sul. As autoridades prenderam Moon em dezembro, sob as acusações de que ele utilizou pressão ilegal para forçar a aprovação da fusão.

A história não acaba aqui, no entanto. No último mês de dezembro, Park sofreu impeachment pelo parlamento em um amplo escândalo de corrupção. Ela foi destituída formalmente na quinta-feira e agora enfrenta acusações de extorsão, abuso de poder e subornos.

Do New York Times:

A sra. Park e sra. Choi foram acusadas de conspirar para receber dezenas de milhões de dólares em subornos de empresas. A sra. Park também foi acusada de deixar a sra. Choi, que não tinha nenhuma experiência em política, editar os seus discursos, indicar conhecidos como altos funcionários do governo e influenciar assuntos de Estado.

Entre essas dezenas de milhões de dólares estariam a grana de Lee e de outros executivos da Samsung (Choi, por sua vez, tem seu o próprio plano de fundo inusitado: seu falecido pai era o líder da Igreja da Vida Eterna, que o Washington Post descreveu como um “culto xamânico questionável”).

Embora a Samsung e Lee tenham admitido realizar pagamentos, garantir um veredito de culpa contra Lee ainda pode ser difícil. Koh Hyun-sook, um espectador que esteve na audiência preliminar de Lee na quinta-feira, disse ao New York Times que “existe um ditado na Coreia que diz ‘culpado quando não se tem dinheiro, e inocente quando se tem dinheiro'”.

Essa frase, na verdade, tem um precedente, inclusive na família Lee. O pai de Jay Y. Lee – tecnicamente, o presidente atual da Samsung – já teve suas próprias batalhas envolvendo corrupção. Lee Kun-hee foi condenado por sonegação de impostos e peculato num caso surpreendentemente similar a esse, ocorrido em 2008. Mas em 2009, antes de poder cumprir a sentença, foi perdoado pelo então presidente Lee Myung-bak, aparentemente para que pudesse continuar a ajudar a campanha para que a Coreia do Sul ganhasse a candidatura para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2018. A campanha para as Olimpíadas foi bem-sucedida, e Lee Kun-hee voltou ao seu cargo sem passar sequer um dia na cadeia. (Essa não foi a primeira vez em que foi perdoado por acusações de suborno – o mesmo aconteceu em 1997).

Historicamente, a Coreia considera a Samsung e outras famílias com chaebols “muito grandes para que caiam“. Sangin Park, um professor de economia da Universidade Nacional de Seul, disse ao Quartz que “os coreanos geralmente temem que, se uma família dona de um chaebol deixar o poder, o conglomerado irá acabar ruindo. E, se o conglomerado falir, eles temem que a economia acabe numa crise”.

Mas os tempos podem estar mudando. Cada vez mais, as pessoas da Coreia do Sul estão se sentindo mais desconfortáveis com a ideia do chaebol. E, se Jay Y. Lee for considerado culpado, o plano de sucessão cuidadosamente elaborado da Samsung pode acabar numa completa bagunça.

No passado, a condenação não necessariamente seria o fim para Jay Y. Lee. Afinal, seu pai foi condenado – e perdoado – duas vezes. Mas a destituição de Park Guen-hye do poder torna esse cenário mais complicado. Do New York Times:

Devido ao escândalo de Park, todos os partidos políticos prometerem restringir o poder presidencial na anistia de magnatas dos chaebols condenados por crimes de colarinho branco. Eles também prometeram impedir os presidentes de chaebols de ajudarem seus filhos a acumular fortunas por meios duvidosos, como forçar suas empresas a fazer negócios exclusivos com os negócios dos filhos.

Dependendo de quem suceda Park na presidência, bem como o sentimento geral dos sul-coreanos, Lee – a Samsung – pode sofrer repercussões negativas. É muito cedo para fazer qualquer aposta sobre como todo esse caso irá seguir, mas estaremos de olho.

Imagem do topo: AP




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