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Viver no espaço – particularmente em Marte – é algo que fascina a nossa espécie há décadas. Recentemente, o fundador da SpaceX, Elon Musk, decidiu que iria colocar muita grana num plano para colonizar o Planeta Vermelho. A NASA também tem planos com sua “Jornada a Marte” em 2030. Há muitas outras iniciativas e planos mais obscuros para colonizar Marte, liderados por celebridades, bilionários e até mesmo os Emirados Árabes.

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Mas existe uma grande diferença entre colocar os pés em Marte e construir uma base de longo prazo num outro planeta. Em relação à colonização humana de Marte, há uma série de preocupações – em particular, como os humanos iriam lidar, tanto fisicamente quanto psicologicamente, com um ambiente tão severo? Num estudo publicado recentemente no periódico Space Policy, Konrad Szocik, cientista de cognição da Universidade de Tecnologia da Informação e Gerenciamento em Rzeszow, na Polônia, aponta que mandar astronautas para viver um tempo na Estação Espacial Internacional não é o treinamento adequado para preparar a habitação em Marte. Na verdade, Szocik depreende que os humanos precisarão alterar seus corpos de uma maneira bem extrema para conseguir se sustentarem numa colônia marciana.

Outros entusiastas dessa ideia, incluindo Elon Musk, discordam.

“Minha ideia é que o corpo e a mente humana são adaptadas para viver num ambiente terrestre. Consequentemente, alguns desafios fisiológicos e psicológicos durante a jornada e depois, durante o cotidiano em Marte, provavelmente serão muito difíceis para que os humanos sobrevivam. Por exemplo, nós deveríamos levar em conta o alto risco de problemas de saúde durante uma missão dessas e a falta de ajuda e cuidados médicos profissionais diretos”, disse Szocik ao Gizmodo por email.

No seu artigo, Szocik explora alguns dos tratamentos preventivos que outros pesquisadores sugeriram para astronautas, antes que fossem para Marte. Ele nota que alguns sugeriram “deixar a tripulação em coma antes da jornada”, o que reduziria as necessidades de energia, preveniria atrofia dos músculos e proveria uma proteção extra à radiação do espaço profundo, e até “remover o apêndice para evitar grandes perigos”.

De fato, em 2012, pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde dos EUA (NIH) enumeraram os riscos potenciais e as vantagens de se realizar apendicectomia e colecistectomia – remoção do apêndice e da vesícula biliar, respectivamente – antes de enviar astronautas a longas viagens espaciais. A lógica é bem simples: se o apêndice ou a vesícula biliar de alguém estourarem no espaço, uma cirurgia seria mais do que desagradável – seria impossível.

Szocik argumenta também que as primeiras missões tripuladas para Marte poderiam ter uma carga psicológica muito pesada. Mesmo que os primeiros colonizadores passem por um preparo mental forte, a pressão do isolamento num ambiente de alto risco é assustadora. No entanto, os primeiros resultados do experimento HI-SEAS da NASA, que imita esse isolamento ao manter pequenas equipes num domo perto do vulcão Mauna Loa no Havaí, são promissores. Recentemente, uma equipe passou um ano num ambiente parecido com o de Marte, e seus membros voltaram do confinamento bem positivos e animados.

“Realmente, os problemas psicológicos (“saúde comportamental” na terminologia da NASA) serão uma grande preocupação”, disse Mark Shelhamer, ex-cientista chefe do programa de pesquisa humana da NASA, ao Gizmodo. “Nesse sentido, a EEI não é o melhor local para simular uma missão para Marte. A EEI é isolada e confinada (embora não tanto quanto uma nave espacial para Marte será). No entanto, as equipes se revezam para que sejam enviadas novas pessoas a cada três meses, e existe uma estrutura bem robusta e efetiva de apoio psicológico (os astronautas podem falar com amigos, família, físicos e psicólogos na Terra a qualquer momento, sem nenhum atraso de comunicação)”.

No geral, Szocik diz que nenhuma preparação na Terra conseguirá dar, necessariamente, tudo o que uma pessoa precisa para sobreviver em Marte a longo prazo. “Acho que a medicina pode ser insuficiente e que serão necessárias algumas soluções permanentes, como modificações genéticas e/ou cirúrgicas”, disse ele, acrescentando que deveríamos usar a ideia de trans-humanismo – segundo a qual, aproveitando a ciência e a tecnologia, podemos melhorar nossos corpos e mentes para sobreviver em ambientes muito diferentes – para nos prepararmos.

Esse conceito não é exatamente novo: futuristas propõem há muito tempo que a humanidade precisará usar a biologia, nanotecnologia, tecnologia da informação e ciência cognitiva para se tornar mais equipada para a vida no espaço. E, embora a ideia de acelerar nossa evolução biológica para aumentar as chances de sobrevivência em Marte soe interessante, não são todos que acreditam que essa seja uma ideia viável, ética ou necessária.

“Pessoas já sugeriram selecionar astronautas com base em predisposições genéticas para coisas como resistência à radiação. É claro que essa ideia está repleta de problemas. Primeiro, é ilegal escolher candidatos de emprego com base em informações genéticas. Depois, existem consequências não intencionais ao fazer manipulações como essa, e quem é que sabe o que pode piorar se escolhermos e selecionarmos o que achamos que deve ser feito melhor?”, disse Shelhamer.

Embora Shelhamer admita que as ideias de Szocik sejam interessantes, ele sente que elas são, no final das contas, desnecessárias. “Acho que podemos dar aos astronautas as ferramentas – físicas, mentais e operacionais – para que eles sejam, individualmente e como um grupo, resilientes diante do desconhecido. É nisso que estou trabalhando agora, mas ainda está nos primeiros estágios. Que tipo de pessoa prospera em ambientes extremos? Que tipo de estruturas missionárias existem para ajudar essa pessoa? É isso o que precisa ser examinado sistematicamente”, disse.

O futuro presidente de Marte, Elon Musk, foi mais direto quando pedimos para que comentasse a ideia de que humanos precisariam alterar sua biologia para sobreviver em Marte, dizendo que toda a premissa era “ridícula”. “Estar no espaço profundo ou na órbita da Terra por longos períodos é muito pior do que estar em Marte. Buzz Aldrin ainda está bem, assim como outros astronautas”, disse Musk ao Gizmodo, via DM no Twitter.

Mesmo que os mais otimistas estejam certos, e nós não tenhamos que nos modificar para viver de forma saudável em Marte, uma grande questão permanece ao pensar na colonização: como iremos nos reproduzir? Embora não seja tão ruim quanto o espaço profundo, a superfície de Marte sofre de intensa radiação, devido ao fato da sua atmosfera ser muito mais fina do que a da Terra e não possuir um campo magnético para desviar partículas energéticas. Isso é particularmente preocupante para as mulheres que gostariam de engravidar, já que pequenas doses de radiação ionizante podem ter graves consequências para a saúde dos fetos. Com toda a probabilidade, assentamentos de longo prazo teriam que ser construídos sob a superfície do planeta para proteger as pessoas, especialmente os jovens, idosos, doentes e grávidas, das partículas energéticas solares e dos raios cósmicos galácticos.

“Não sabemos como a gravidade reduzida e a radiação irão afetar o processo de reprodução humana. Podemos supor que esse impacto será prejudicial”, disse Szocik.

Szocik acrescentou que, para manter uma colônia capaz de sustentar a si mesma sem realizar cruzamentos consanguíneos, teríamos que enviar um monte de gene para Marte, o que poderia ser difícil. Dessa forma, ele sugere “levar em consideração uma oportunidade de clonar humanos ou outros métodos similares”, para manter a colônia.

Levar a humanidade para vários planetas soa emocionante. Também soa terrível! Esperemos que as próximas missões como Rover 2020 da NASA nos deem mais informações sobre como poderíamos viver (e transar) em um planeta frio e insensível.

Imagem do topo: Elena Scotti/Gizmodo/GMG, fotos via Shutterstock




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