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Uma reportagem do New York Times nesta sexta-feira (29) identifica mais de 250 games mobile na Play Store, do Android, que usam software de reconhecimento de áudio sempre ligado para acompanhar a TV dos usuários e o comportamento de visualização de propagandas. Especialistas citados na reportagem também dizem que o desenvolvedor do software, uma startup chamada Alphonso, não descreve claramente como os jogos, alguns dos quais explicitamente visam crianças, utilizam os microfones dos jogadores.

Conforme o New York Times descreve, os apps se aproveitam dos microfones dos tablets e smartphones para ouvir “sinais de áudio”, que conseguem detectar se alguém está assistindo a um anúncio, programa de TV ou filme específicos. Esse ambiente de vigilância é contínuo, mesmo quando os games estão rodando em segundo plano e ainda que o jogo em si não exija um microfone para ser jogado. Os usuários, é claro, dão permissão para acessar seus microfones, mas um especialista citado no artigo argumenta que o texto ainda é enganador.

“Quando você vê ‘permissão para acesso ao microfone para anúncios’, pode não estar claro para um usuário que isso significa que ele vai ouvir o que ele faz o tempo todo se você estiver assistindo ao Monday Night Football”, afirmou Justin Brookman, diretor de privacidade do consumidor na Consumers Union, em entrevista ao New York Times. “Eles precisam se assegurar de que os clientes saibam o que está acontecendo.”

Fundada em 2013, a especialidade da Alphonso é “retargeting de TV“. Pelo fato de as pessoas se voltarem para seus tablets e smartphones durante pausas comerciais da TV, a Alphonso coleta dados de visualização para enviar anúncios direcionados para dispositivos móveis baseado naquilo a que os clientes estão assistindo. A Alphonso supostamente tem um acordo com o Shazam, o popular app de identificação de músicas que a Apple adquiriu recentemente. De acordo com o diretor-executivo da Alphonso, a tecnologia captura trechos de informação de áudio, e então a companhia tem essa informação reconhecida e categorizada pelo Shazam, que vende essa informação de volta para a Alphonso.

Alguns dos jogos utilizando a tecnologia da Alphonso também estão disponíveis na App Store, da Apple, afirma o New York Times.

Em seu site, a Alphonso propagandeia sua capacidade de usar propaganda direcionada para “alcançar públicos de programas de TV que as marcas não estão atualmente comprando”. Uma marca de maquiagem, por exemplo, pode querer visar telespectadores de Keeping Up with the Kardashians. Dessa forma, eles podem comprar tempo de anúncio da emissora e enviar anúncios para os celulares dos telespectadores por saber o que você está assistindo.

“Várias das pessoas vão desligar seus celulares, mas uma pequena porção das pessoas não faz isso, colocando-os de volta em seu bolso”, disse Ashish Chordia, CEO da Alphonso, em entrevista ao New York Times. “Nesses casos, conseguimos pegar em uma pequena amostra quem está assistindo ao programa ou ao filme.”

Dispositivos que estão sempre escutando, como os Echoes, da Amazon, estão se tornando cada vez mais comuns. E mesmo que fossem projetados para capturar trechos de informação, as pessoas estão cientes das maneiras que suas conversas podem, na melhor das hipóteses, acabar em um banco de dados de propaganda direcionada. A Vizio perdeu uma ação judicial em fevereiro por causa da maneira como suas TVs coletavam dados dos consumidores, enquanto a Mattel cancelou seu dispositivo Aritotle, um alto-falante inteligente projetado para crianças. Mas o caso da Alphonso é bem mais assustador, porque os usuários podem simplesmente não entender aquilo com que estão concordando. Conforme a onipresença da tecnologia de reconhecimento de áudio se torna mais comum, talvez esteja na hora de considerarmos que alguém, ou algo, está sempre escutando.

[New York Times]

Imagem do topo: New York Times




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