Gizmodo



dinheiro

O que são ICOs e por que elas estão sendo banidas na China

Por:

8 de setembro de 2017 às 13:42

COMPARTILHE 0

Na semana passada, a China baniu a oferta inicial de moedas (ICO) e pausou por um breve momento a incontrolável subida de preço da bitcoin. Mas as criptomoedas já se recuperaram do golpe. Com personalidades como Paris Hilton, Kim Dotcom e John McAfee mergulhando no mundo das ICOs de uma maneira ou de outra, parece válido questionar o que diabos é isso.

• Um boato no 4Chan colaborou com a desvalorização da criptomoeda Ethereum
• Como (tentar) ficar rico minerando criptomoedas

Uma ICO é algo parecido com uma IPO (oferta pública inicial), que é quando uma empresa quer oferecer títulos de propriedade ao público. Quando uma companhia como o Snapchat quer levantar muito capital de investimento para financiar um crescimento rápido, ela oferece ações para investidores, que são cotadas a partir de um número de fatores, e a Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês) impõe regulamentações que ajudam proteger os investidores que decidem entrar no jogo. Com uma ICO, uma empresa oferece a chance de investir em uma “nova” criptomoeda, que muitas vezes tem um aspecto de negócios relacionado. Tipicamente, a ICO aceitará as maiores criptomoedas como bitcoin e ether e, em alguns casos, moedas tradicionais, tudo isso em troca de “cripto-tokens” que basicamente funcionam como as ações de uma empresa. É como se um token fosse a ação de uma empresa.

As regulamentações impostas por governos aos IPOs, junto com práticas padronizadas de negócios, oferecem um certo nível de consistência. Seu investimento pode ser insensato e o produto pode não decolar, mas é possível confiar que um determinado número de itens cautelares foram checados quando o IPO foi preparado. Com uma ICO, praticamente todas as regras funcionam de um modo que varia de caso para caso. Você pode visitar um repositório como o CoinSchedule que mostrará as atuais ICOs oferecidas e aquelas que em breve estarão disponíveis. Escolha uma que pareça interessante e encontrará uma lista de quantos tokens serão oferecidos, como comprá-los e, geralmente, um artigo técnico explicando como funciona. Os termos e condições, modelo de negócios e a estrutura legal são definidas pela própria ICO.

No caso da recém-cunhada superstar das criptomoedas, Ethereum, tudo começou com um ICO fundado com bitcoin que se tornou sua própria criptomoeda (ether) e que é considerada tão confiável quanto a bitcoin por muitas pessoas dentro da comunidade. A Ethereum, falando de forma ampla, está posicionando a si mesma como uma rede computacional descentralizada especializada em contratos inteligentes – um método para armazenar e verificar dados no blockchain. Muitas pessoas acreditam que contratos inteligentes terão muitas utilidades, especialmente no mundo das finanças. Mas esse é outro assunto. A coisa mais importante a se saber agora é que existe um uso hipotético para a Ethereum além dela ser apenas outra criptomoeda baseada em blockchain.

No outro lado do espectro, existem ICOs como a Useless coin (moeda inútil, em tradução livre), que começou como uma piada por uma pessoa chamada “UET CEO” e que foi vendida oferecendo de forma transparente aos seus investidores “nenhum valor, nenhuma segurança e nenhum produto. Apenas eu, gastando o seu dinheiro”. A Useless coin deveria ter sido apenas um comentário satírico a respeito da natureza precária das ICOs, mas ainda assim atraiu alguns investidores e atualmente tem uma capitalização de mercado de cerca de US$ 64 mil.

Isso provavelmente soa estúpido, mas não muda o fato de que ICOs já levantaram cerca de US$ 2 bilhões neste ano. Existe um nível de fé e um nível de aposta envolvidos. Assim como o dólar americano é apoiado pela “completa confiança e crédito do governo dos Estados Unidos”, a bitcoin é apoiada pela fé da comunidade que continua colocando dinheiro nela. A fé no mercado de ICO é quase que totalmente dependente da fé de que a bitcoin continuará a crescer em valor. Até agora, pessoas que estão há muito tempo na criptomoeda original estão se dando bem, e seu valor mais do que quadruplicou neste ano – seu preço atual está em cerca de US$ 4.650. Defensores como John McAfee tendem a fazer previsões insanas sobre o quão alto o valor pode chegar, e, em julho, ele disse que irá “comer seu próprio pau em rede nacional” se o valor não chegar a US$ 500 mil por bitcoin dentro de três anos.

No mês passado, dois grandes problemas atingiram a bitcoin, e ninguém sabia o que aconteceria com o seu valor de mercado. O primeiro problema foi a separação para uma nova criptomoeda chamada Bitcoin Cash. Algumas pessoas pensaram que essa separação poderia causar uma divisão no apoio pela bitcoin, mas o preço da moeda original rapidamente se recuperou e desde então só aumentou. O segundo teste aconteceu nesta semana, quando a China baniu as ICOs. A bitcoin pediu cerca de US$ 500 por token em valor, no curso de apenas dois dias, mas praticamente já se recuperou.

O anúncio realizado pelo governo chinês tomou uma posição linha dura, exigindo que todas as ICOs devolvam o dinheiro aos investidores das ofertas que já foram completadas. De acordo com o TechCrunch, “a empresa de mídia estatal Xinhua reportou em julho que empresas chinesas levantaram US$ 383 milhões a partir de 105 mil investidores durante a primeira metade do ano”. Esse é um grande problema, especialmente se as ICOs forem parecidas com as diversas brincadeiras americanas com moedas que sempre têm a intenção de levantar dinheiro de investidores bobinhos.

O banco central chinês não revelou completamente a sua motivação para proibir as ICOs, além do comunicado que afirmou que elas tinham “perturbado seriamente a ordem econômica e financeira”. Mas especialistas foram rápidos em oferecer diversas explicações para as decisões, principalmente apontando que oportunidades para fraudes são amplas.

Outra possibilidade intrigante sobre a decisão da China é que o governo pode ter planos para oferecer sua própria criptomoeda no futuro. O fato é: a China tem desativado e reativado câmbios de bitcoins há anos. Claramente, eles veem um potencial neste campo e são muito cautelosos em deixarem-no crescer rapidamente dentro de sua economia altamente controlada. Surgir com a sua própria criptomoeda poderia ser a solução que estão procurando.

Fred Wilson, um investidor da Union Square Ventures e um dos maiores impulsionadores da bitcoin dentro do establishment, especulou que a China está apenas procurando por um período para esfriar as coisas. Recomeçar tudo do zero é uma baita de uma maneira de conseguir isso. E outros países estão mostrando sinais de que grandes mudanças que poderiam corromper o mercado de criptomoedas estão a caminho.

Na terça-feira (5), o co-diretor da Comissão de Títulos e Câmbio dos Estados Unidos (SEC), Steven Peikin, se pronunciou contra a tendência crescente de ICOs durante uma palestra na Universidade de Nova York. “Assim como com qualquer tipo de evento notável, as baratas meio que saem de todos os lugares e tentam tirar proveito dos investidores”, disse ele para a audiência.

As observações de Peikin seguem o que foi dito em um relatório da SEC de julho, que mostrou que os tokens emitidos por uma empresa alemã chamada slock.it são títulos que precisam estar de acordo com a legislação dos EUA e que estão sujeitos a todos os regulamentos que essa designação implica.

A slock.it levantou US$ 150 milhões em ether, antes de US$ 53 milhões terem sido hackeados em junho de 2016. A investigação da SEC estava focada nessa organização e em seus co-fundadores e o relatório claramente diz que “a lei federal de valores mobiliários dos EUA pode ser aplicada a diversas atividades, incluindo a tecnologia de contabilidade distribuída, dependendo dos fatos e circunstâncias particulares, independentemente da forma da organização ou tecnologia utilizada para efetuar a oferta ou venda de uma determinada [criptomoeda]”.

A investigação descobriu que as pessoas envolvidas com a slock.it “podem ter violado as leis federais de valores mobiliários”, mas decidiu não prosseguir com ações repressiva neste momento. Parece improvável que o governo hipercapitalista dos EUA faça algo tão drástico quanto o que fez o governo chinês, mas as entrelinhas mostram que o aumento da aplicação de regulamentações é bem provável.

Imagem do topo: OpenGameArt.com




VOLTAR AO TOPO